Viva hoje

Certa vez perguntaram ao filósofo indiano Dalai Lama. Mestre o que mais o surpreende na humanidade? Ele serenamente respondeu: são os homens. E, continuou, “eles passam metade da vida perdendo a saúde para ganhar dinheiro e, depois passam a outra metade gastando dinheiro para recuperá-la”. No caso em pauta o dinheiro tem várias conotações, simboliza tudo aquilo que desvirtua o nosso modo de vida, a saber: viver do passado ou do futuro, vícios de todas as espécies, visão distorcida das oportunidades, preocupação excessiva com as aparências, convivência constante com o negativo, negação do seu Eu, etc. A propósito do tema, podemos somar para discussão e reflexão, o lema usado nas Comunidades Terapêuticas, onde os dependentes químicos têm como objetivo principal, o seguinte: “só por hoje”. Considerando única e exclusivamente esse propósito de refazer  a vida, vivendo-a um dia de cada vez. Assim é que ao invés de viver tentando abraçar o mundo com as mãos, o melhor e mais eficaz é dosar as energias de acordo com a nossa capacidade de realização.   Interessante que sempre que se lê e vê exemplos de como viver bem, aproveitando as coisas boas da vida,   invariavelmente, sempre fazemos  ao contrário. Ou seja, ao invés de curtir os momentos bons, nos preocupamos em criar um cem números de fantasmas para povoar a nossa existência. Pensamos com exagero incontrolável e com uma ansiedade extrapolada em demasia no futuro e esquecemos descuidadamente de viver o presente.  Por isso é que na maioria das vezes perdemos as batalhas do cotidiano, pois estamos sempre ausentes dentro do presente. Vivemos  totalmente desconcentrados, pensando em outras coisas que ainda não aconteceram,  coisas que estão lá na frente ainda. É próprio de nós mesmos, lamentar resultados futuros, choramos e nos desesperamos por coisas que ainda não aconteceram. E, quase sempre sofremos fora de época,  desperdiçamos lágrimas. Não temos a paciência necessária para aguardar o desfeche final das coisas.  Na maioria das vezes, por um motivo ou outro, nem sempre as coisas acontecem como achamos que vai acontecer. E, por incrível que possa parecer  em muitas ocasiões os resultados nos surpreendem e, verificamos que sofremos antecipadamente por nada.  O pior de tudo é que gente sempre acha que tem  “bola de cristal” para adivinhar o futuro e, isso é praticamente impossível, mas como somos subjetivamente masoquistas,  gostamos de sofrer antes. Por outro lado, vivemos uma eternidade fictícia, pois achamos sempre que não vamos morrer, por isso desdenhamos o presente e ficamos fazendo planos para o futuro, ignorando que cada dia do futuro torna-se um dia do presente não vivido. E, nessa labuta inglória perdemos o prazer de uma vida que poderia ser boa, e que infelizmente nos leva a morrer como se nunca tivéssemos vivido.  Em decorrência dessa opção de não viver o presente, perdemos grandes oportunidades de abraçar e sentir o calor daquelas pessoas que nos são caras. Devido essas atitudes,  nos privamos  de sentir a correspondência gostosa da receptividade de um abraço quente e carinhoso,  a que convenhamos são perdas irreversíveis e lamentáveis. A nossa insensatez nos faz, quase sempre, miseráveis e, no fim de nossa jornada vamos sentir certamente o gosto acre de cabo de guarda-chuva na boca. Evidentemente, este será o nosso prêmio pela insensibilidade permanente que tivemos no trato com a vida. A vida é curta, portanto, vamos curtir a vida.