Não me lembro qual o dia da semana que passou, assistindo a um jornal da TV, fiquei muito triste e terrivelmente inconformado, pois retratava mais uma vez o drama de uma família, como a de tantas outras por esse Brasil afora, onde o descaso era o pivô central da crise sem dó e nem piedade. O filho de dezoito anos vítima de atropelamento, por um motorista inconseqüente e visivelmente alcoolizado, responsável pela tragédia, aliás, este filme todos nós já estamos cansados de assistir. Mas, o pior ainda havia por vir, pois o desconforto e a falta de atendimento no hospital deixaram o jovem praticamente horas sem o devido socorro devido à falta de médico, provocaram nos familiares um sentimento de impotência, que assistiram e sentiram o filho morrer sem que nada pudessem fazer, apenas suplicar e rezar. Não obstante tudo isso, a família inconformada, porém num momento de rara lucidez e, principalmente de amor ao próximo, doaram todos os órgãos que dariam esperanças e salvariam vidas de outras pessoas. Mas, qual não foi à surpresa dos familiares é que nada pôde ser aproveitado em vista da falta de profissionais da área, porque o setor de transplantes não estava funcionando. Inclusive a situação serviu até de sarcasmo para a mãe do falecido, que disse “eles pedem tanto para a gente doar órgãos, pra que?”. Diante deste quadro que bem poderia fazer parte de alguma peça teatral de terror é na verdade acontecimentos tirados da vida real, sendo que não precisaria nem maquiar ou camuflar alguma cena para produção da obra, o seu aproveitamento seria total e na íntegra, como realmente aconteceu. Estamos vivendo dias cinzentos e negros, as esperanças se esvaem, não temos em quem acreditar, pois as nossas fichas sempre foram apostadas nos políticos e nas autoridades constituídas, não temos outras opções. Porém, a cada dia que passa se acumulam as tragédias e as providências caminham a passos de tartaruga, sempre ouvimos o refrão popular daqueles que têm o poder da decisão, “estamos providenciando”, “estamos aguardando a liberação da verba”, “estamos aguardando a assinatura da licitação”. E, nesta enxurrada de descasos vão desfilando as infinitas desculpas, as quais são sempre humildemente aceitas por aqueles que necessitam dos serviços ou dos auxílios, infelizmente, é como se fossem gado caminhando para o sacrifício, ninguém se importa. Às vezes quando comento sobre este assunto sinto que muitos podem pensar que a gente quer ser o salvador da pátria, que bom seria, todavia, sabemos ser humanamente impossível tal ação, pois de antemão temos conhecimento que pobres e necessitados sempre existiram e sempre existirão, mas o que realmente nos constrange são as injustiças praticadas contra nossos semelhantes. Estamos vendo que tais atitudes estão crescendo assustadoramente o que de certa forma coloca em “check” a política social aplicada no país, pois, sabemos dos sofrimentos que muitos de nossos irmãozinhos estão à mercê, devido a este sistema falido da saúde pública. O que nos preocupa também é que a todo instante o governo informa que verbas astronômicas são destinadas à saúde, daí concluímos que recursos não são o problema, ou está havendo um mau gerenciamento da coisa pública ou algo estranho está acontecendo. Isto também ninguém explica ou não é conveniente explicar. Infelizmente o calvário vai continuar.