Esta semana li atenciosamente um artigo neste diário, sobre o título “Sentença muda à rota de uma vida”, narrado por um juiz de direito aposentado. Em sua narrativa o velho juiz destaca uma sentença sua ocorrida há trinta e dois anos, quando tinha diante de si uma pobre criatura escoltada por dois garbosos policiais. A jovem tinha em seu ventre quase nas iminências de nascimento uma criança e, além de tudo era pobre desnutrida e, principalmente, desiludida da vida. O juiz se compadecendo da pobre mulher e, considerando a irrelevância do delito, num gesto de pura compreensão humana, dá-lhe a liberdade para tenha realmente oportunidade de prosseguir nesta vida e criar o seu filhinho. A futura jovem mãe, antecipadamente sabendo de suas condições miseráveis, tinha certeza de que seria presa e relegada ao desprezo dos fracos e oprimidos. Todavia, se surpreende diante da sentença do juiz e, se curva diante dele numa candura angelical e diz: “senhor juiz se meu filho nascer menino, vai se chamar João Batista, para um dia na vida ser um homem de bom coração como o senhor” e, acrescentou “diante de Deus e do senhor eu prometo, posso passar as maiores necessidades, inclusive fome, mas, prostituta jamais serei novamente, meu filho será o meu orgulho e eu serei também o orgulho dele”. Aquela declaração sincera vindo de uma pessoa de somenos importância balançou a estrutura do magistrado que, também a partir daquele dia compreendeu a nobreza de sua missão. Ou seja, julgar com justiça as pessoas, principalmente àquelas que são fracas diante de uma sociedade viciada em que o poder sempre sobrepuja a justiça. Aquele juiz hoje gozando de merecida aposentadoria, traz no bojo de suas lembranças das milhares de decisões tomadas durante sua carreira, aquela da jovem grávida, cuja atitude mudou também a sua vida. Haja vista, que após todos esses longos anos julgando as pessoas, ficou apenas gravado em sua memória a boa ação praticada que, com certeza, deu bons frutos, embora tenha perdido de vista aquela pobre alma. Afinal, o que fica de exemplo desta história para nós é que realmente em nossa trajetória temos infinitas oportunidades para fazer o bem para nosso semelhante e, na maioria das vezes deixamos escapar esta oportunidade. Eu, particularmente, me lembro que em certa ocasião conversando com uma pessoa amiga, observei que suas atitudes tinham mudado com relação a muitas coisas, principalmente sobre ajudar pessoas. Mas, essa mudança de comportamento havia se dado após algum tempo de sua aposentadoria, antes quando ela estava na ativa, não era muito boazinha não, pelo contrário, era severa e intransigente. Aproveitei o momento e, também os laços de amizade que nos unia e disse a ela: “fulana, porque você não agia assim como está agindo agora, quando você tinha autoridade e poderia ter ajudado tanta gente e não ajudou ninguém”. A minha amiga bastante envergonhada admitiu sua omissão, porém, confessou que tudo que fizer daqui por diante será pouco para resgatar o tempo perdido pelo egoísmo e falta de Deus no coração. Na verdade, a vida é um desfile de oportunidades, basta que enxerguemos isso, pois, deve ser um encanto celestial chegar ao fim dela e ver que a nossa existência não foi em vão, pelo contrário, alguém se lembra de nós com carinho e afeição dentro do coração. Além de essas lembranças massagearem o nosso ego, deve de certo modo contar pontos na hora do juízo final, esperamos que sim, senão, só o momento sentido e vivido já nos foi suficientemente prazeroso.