Sentado descontraidamente em uma cadeira de balanço lá na área de casa, comecei mentalmente a rebuscar um relicário de recordações da Votuporanga de antigamente. Fui bem longe, cheguei facilmente nos idos de 1.950, a gente era moleque e tinha mais ou menos sete anos, estava entrando no primeiro ano do grupo escolar. Votuporanga também era moleca, pois estava na casa dos treze anos, a inocência era o adjetivo que mais bailava no momento, o coração de toda molecada da época era puro, tal qual ao da cidade. Naquele tempo não se tinha televisão e, a diversão do momento eram as “peladas” nos terrenos vazios das adjacências, além das brincadeiras de “salva pega”, “garrafão”, “romã” e, várias outras que preenchiam na medida certa o espaço de nossa alegre existência. Aos domingos, na parte da tarde lá íamos nós ao cinema, nas matinês, assistir os queridos heróis de plantão, tipo Tarzan, Zorro, Super Homem e, vários outros que povoavam nossas mentes, com sonhos coloridos, embora, os filmes daquele tempo eram em preto e branco. Interessante também que a gente ia bem mais cedo para a porta do cinema, a fim de trocar os “gibis”, revistas dos mocinhos da tela grande. O comércio dessas revistas se fazia elas por elas, ou seja, trocava-se uma revista por outra somente, não havia participação de dinheiro, porém, podia-se, conforme o caso acrescentar na troca algumas balas chitas para completar a negociação. E, neste meu devaneio, me vejo agora em idade setuagenária e a nossa querida Votuporanga também, todavia, tudo não é mais como antes, daí a reminiscência, lembranças daqueles tempos que jamais voltarão. As brincadeiras de rua acabaram as peladas de campinhos em terrenos baldios desapareceram, os gibis e as charmosas matinês, foram enterradas sem honras e sem nada, apenas vaporizaram. A inocência de outrora são apenas lembranças saudosas e nada mais, hoje, infelizmente, as crianças parece que já nascem sabendo de tudo, inclusive, daquilo que seria competência apenas dos adultos. A cidade cresceu, se desenvolveu, virou uma senhora e, sem que tivéssemos nos apercebido perdemos a nossa identidade para como ela. Tanto é verdade que na movimentação do dia a dia, cruzamos com milhares de pessoas nas ruas e, uma vez ou outra deparamos com algum rosto conhecido, tornamo-nos desconhecidos dentro da nossa própria terra. Esquisito mesmo é saber que pelo conceito urbanístico, cidade grande é reconhecida pelas mazelas que acumulam. Senão vejamos: uma pessoa comenta, nossa não conheço mais ninguém, aí o outro responde: é a cidade está ficando grande. Outro comenta: fiquei sabendo que aconteceram hoje três acidentes, inclusive, um deles duas pessoas estão em estado grave lá na UTI do hospital, nisto um outro cidadão responde: é a cidade está ficando grande. E, folheando um jornal local, lemos que ontem três locais foram assaltados em plena luz do dia, duas farmácias e um super mercado, aí eu penso com um sorriso maroto no canto da boca: xi a cidade está ficando grande mesmo. Realmente os tempos de outrora não voltarão jamais, resta-nos como consolo as reminiscências do passado, pois, sonhar faz bem e, alimenta a alma e o coração.