Interessante que a pergunta acima atravessa séculos e a resposta ainda é dúvida, levando-se em consideração a atitude de muitos. Segundo o Evangelho o senhor Jesus, diante da multidão enfurecida para matar a pedradas a jovem prostituta, pergunta a todos “quem não tiver pecado que atire a primeira pedra”. De repente, desconsertados e envergonhados, todos os presentes, indistintamente, abriram suas mãos e deixaram as pedras caírem uma a uma no chão de terra do local onde ocorreria o sacrifício. Isto aconteceu há mais de dois milênios e, até hoje se pergunta quem deve julgar. Uma vez que diante do acontecimento real, o Mestre não condenou, embora tivesse autoridade para tal, não o fez para mostrar a nossa pequenez. Contrariamente aos fatos é bastante comum sairmos por aí dando uma de melhor que os outros, embora a nossa postura de julgador só aconteça quando não somos os protagonistas. Dia destes, quando estive num escritório de despachante, ao chegar, a atendente, me chamou para ir até a porta do estabelecimento e disse: Olha, o senhor está vendo aquela idosa ali no bar tomando cerveja, eu disse que sim. Então a atendente continuou a me contar que há poucos momentos, ela, a idosa, estivera ali pedindo a todos os presentes uma ajuda para comprar remédios e, ao invés disso foi tomar cerveja no bar. O que o senhor acha disso? No momento fiquei numa situação muito embaraçosa, pois o que responder para aquela jovem. Pensei um momento, e me lembrei da prostituta do Evangelho. Então, tomando uma postura natural e fiel, usando de toda sinceridade possível falei: filha, primeiramente acho que não posso julgar, porém, é a idosa que terá a responsabilidade de prestar contas de sua atitude. Em assim procedendo senti não estar fazendo apologia de coisas erradas. Muito pelo contrário, o meu temor sempre foi de quando negar ajuda a alguém, por generalizar todos os pedintes, poderia estar cometendo uma injustiça à alguém realmente necessitado. De toda maneira o assunto é muito delicado e, acima de tudo polêmico, pois existem posições as mais variadas possíveis diante de tal situação. Primeiramente, segundo dizeres da própria Constituição Federal, é obrigação do Estado o amparo àqueles menos favorecidos pela sorte, todavia, não é isso que vemos. E, uma coisa é certa, se não fosse à existência nas cidades das entidades filantrópicas, que por pura abnegação e amor ao próximo, dedicam seus esforços para amenizar necessidades e outras dependências mais. Mesmo assim, vemos ainda muitas coisas a serem feitas na área social, pois a demanda é muito maior que os recursos disponíveis para tal. É por isso que fica muito complicado julgar se um pedinte, cujas circunstâncias por nós ignoradas, desvia a aplicação do donativo para outros fins. Quando vejo um mendigo, principalmente se for idoso, me pergunto primeiramente, quais as perspectivas de vida daquele ser humano! Eu mesmo me atrevo a responder, absolutamente nenhuma, com certeza, vai morrer miseravelmente pobre, doente e sem recurso. Então, se posso ajudar, porque não dar a ele a ajuda pedida e, sinceramente acho tão pouco de minha parte! Eu sei que muitos poderão me dizer que existem aproveitadores, verdadeiros malandros que fazem da mendicância um meio de vida. Sei que podem existir esses tipos também, todavia, não tenho bola de cristal para saber quem é malandro ou quem realmente está precisando. O que não posso é correr o risco de deixar de ajudar uma pessoa que realmente esteja precisando. Aliás, a ajuda não é só em espécie, ela pode acontecer de várias maneiras, inclusive num simples encaminhamento. Na área jurídica existe uma máxima que expõe o seguinte: “é preferível deixar soltos cem culpados a deixar preso um inocente”. Portanto, a indagação continua, creio que por muitos séculos ainda. Quem deve julgar?