A inveja real

Conta-se que uma serpente começou a perseguir um vaga-lume, sendo que no primeiro dia de perseguição ele conseguiu escapulir. No segundo dia, lá vem a serpente novamente querendo comer o pobre bichinho, que voa daqui voa dali e, muito esbaforido depois de tantas peripécias, consegue outra vez escapulir. Já no terceiro dia, bem de manhã quando menos se espera lá vem a cobra querendo comer o vaga-lume. Porém, antes que se inicie a caçada, o vaga-lume pergunta para a cobra: posso lhe fazer três perguntas? Pode, responde o ignóbil réptil.  Faço parte de sua preferência alimentar, pergunta o pobre inseto? Não, responde a serpente. Continua, o vaga-lume, te fiz algum mal? Não, responde a cobra. Então, exclama o infeliz, porque você, sem nenhum motivo aparente, quer acabar comigo! E, a serpente com um olhar brilhante de puro ódio, respondeu: porque não suporto ver você brilhar. E, só para completar o exemplo, é bom lembrar do dito popular que diz: “você não precisa apagar a luz do vizinho para a sua brilhar”. É interessante saber que indistintamente temos alojado lá no fundinho do coração todos os sentimentos, inclusive o da inveja, todavia, depende exclusivamente de cada um nós, ativá-los ou não. No entanto, a inveja é por si só uma erva daninha, tanto é verdade que ela faz mal para ambos os lados, ou seja, tanto para o invejoso quando para o invejado. Na esfera dos sentimentos a inveja se destaca como o mais torpe, uma vez que ela penetra de tal maneira na alma humana que o ser possuído terá enormes dificuldades para eliminá-la. E, na maioria das vezes não consegue. Também é bom destacar que a inveja é um dos piores vícios, sendo que os seus sintomas são tão graves que chega a despontar como aquele que mais causa sofrimento. Existem pessoas que estão sempre na espreita, observando e, basta ver alguém se destacar, seja em qualquer tipo de atividade, que lá está ela para tentar denegrir a conquista da outra. Aliás, não precisa ser algo importante ou valioso, pode ser apenas um vestido, um brinco, uma pulseira ou um calçado, usados com fino gosto para provocar motivo de elogios, quase sempre falsos. É justamente aí onde a inveja mora, pois naquele momento sentimos um tremendo vazio interior, uma sensação de perda ocasionada pela imaginação de que somos muito mais dignos do que aquele que possui o que não temos. Por oportuno, é bom frizar, com grifos fortes, que o invejoso nunca faz exame de consciência, para ele sempre os outros estão tomando algo de si. Jamais passa pela sua minúscula cabecinha que ele deixou de ocupar os espaços, ocupados por outros ou deixou de ter algo, conquistado por outros, somente devido a sua pura incompetência e comodismo. Lembro-me que antigamente havia um comercial de refrigerante, onde uma mocinha dizia a outra: “não imite, não tenha inveja, seja autêntica, seja você mesma”. Por sinal, aí está à solução, ou seja, o antídoto da inveja é a autenticidade, ser a gente mesma. E, complementando, convém lembrar que o mundo é muito grande, tem espaço para todos, portanto, não precisamos ocupar e nem nos preocupar com o espaço dos outros.