Eu tenho a leve impressão de que quase a maioria dos que estão lendo este artigo já não tem mais pai. Eu mesmo infelizmente perdi o meu há quinze anos e, confesso que quase todos os dias ainda sinto falta dele. O meu pai era uma pessoa muito simples e de pouca cultura, porém, tinha um enorme coração, praticamente não tinha inimigos, isso eu posso garantir. Gostava de dedilhar em seu violão algumas cantigas do tempo em que se “amarra cachorro com lingüiça”. Mas, era muito divertido e, ele recebia aplausos daqueles que ficavam ao seu redor ouvindo, principalmente eu. No entanto, o seu forte era contar “causos” e, sua especialidade era os contos de lobisomem, mula sem cabeça e toda sorte de assombrações que povoavam o mundo daquela época. Gozado que os contos sempre aconteciam à noite, uma vez que naquele tempo de dia o pessoal trabalhava, portanto, era sempre na penumbra da noite que os fantasmas apareciam. E, para dar mais realeza aos contos, o ambiente era propício, luz das labaredas do fogão de lenha e claridade das lamparinas a querosene. Interessante relembrar isso, pois, como se pode ver tudo acontecia dentro da maior simplicidade e, a gente não tinha muitas opções, todavia, se amava muito essa vida e aos que nos rodeavam, pais, irmãos, irmãs, avós, vizinhos e amigos. Tanto é verdade, que o respeito com amor era a tônica da convivência entre pais e filhos e, eu não me lembro e nem se tem notícias de que àqueles de antigamente trouxessem em sua formação algum tipo de trauma. Aliás, a disciplina, a educação e o respeito sempre foram sinônimos de convivência feliz, jamais havia por parte do pai a preocupação excessiva de se fazer obedecer, a gente simplesmente obedecia e, ponto final. Naturalmente essa condição se fazia acontecer, uma vez que a preocupação maior do pai era com que seus filhos se tornassem pessoas dignas, trabalhadoras e respeitosas. Alegrias a parte e reminiscência também, hoje o quadro parece-nos um tanto quanto nublado, haja vista que a figura afetiva e carinhosa do pai se manifesta de maneira muito tímida. Como que para tudo existe uma desculpa, é bem oportuno dizer que as coisas são diferentes agora devido aos tempos que são outros. Obviamente que no aspecto familiar as mudanças foram nitidamente da água para o vinho, infelizmente para pior. Os pais de agora seguramente não detém nenhum controle sobre filhos e, os ditos cujos usam indiscriminadamente essa liberdade de forma a vedar toda a autoridade paterna. Infelizmente, os famosos “pais modernos” frustraram suas condutas em se equiparar ao filho não como tal, mas, sim como amigo e, deram, como não podia ser diferente, como diz o ditado, com os “burros n’água”. Devido este comportamento equivocado, onde o nivelamento não é conveniente em se tratando de hierarquia familiar, pois, é bem claro que pai deve ser estritamente pai e, filho deve também ser estritamente filho. Aliás, não é difícil observar nos tratamentos entre pais e filhos, o pai num ufanismo imaginário dizer de peito aberto: eu e meu filho somos grandes amigos. E, é aí que reside o perigo com referência a educação, pois, na verdade amigo qualquer um pode ser, mas, pai somente um pode ser. E, essa condição para que haja uma boa harmonia e um relacionamento dentro dos parâmetros familiares está condicionada no respeito e na visão absoluta de ambos de quem é quem. Educar com liberdade e ensinar a aplicá-la com responsabilidade é a melhor forma para desenvolver a confiança e consolidar o amor paternal. Alguns conflitos não há como evitá-los, mas muitos podem ser resolvidos com um bom diálogo e respeito mútuo. A comunicação entre pais e filhos exige participação efetiva de ambos, porém, as rédeas desse canal devem ser conduzidas de maneira que não haja autoritarismos e, sim respeito e amor. É certo que dentro deste turbilhão de comunicações existentes as tarefas dos pais tornam-se um pouco mais dificultosas, mas o trabalho para que isso se realize trará recompensas imediatas e a longo prazo. Desta forma, como homenagem para todos os pais vivos, desejo muita paz, saúde e paciência e, aos pais falecidos, muitas orações e saudades.