Por necessidade técnica, precisei encaminhar a televisão aqui de casa para o conserto, todavia, tomei todas as precauções possíveis e imagináveis no que diz respeito a sua ausência. Isto quer dizer que escolhi um dia cuja programação pareceu-me que não teria tanto impacto se passasse em branco, isto é, sem assistir. Daí foi que combinei com a oficina de conserto para retirá-la, ficando devidamente acertado que a devolveriam no dia seguinte. Gente vocês não idéia como foi horroroso aquele começou de noite de segunda-feira sem a televisão. Comecei a agir como se fosse robô, isto é, com movimentos simétricos e repetitivos, andando de um lado para o outro, incomodado, ansioso, não parava nem sentado e nem em pé, virou um caos. Faltava alguma coisa, era um vazio inexplicável, pegava um jornal e logo o jogava num canto sem pelo menos te-lo lido. O mesmo acontecia com uma revista, era folheada e logo desprezada. Pegava um livro e, realmente não tinha concentração necessária para entender o seu conteúdo, no fim acabou tendo o mesmo destino do jornal e da revista. Aproveitei para fazer um “dever de sentar”, com a família, aproveitando o silencio forçado, devido a ausência da televisão. Era realmente o momento ideal para manter uma conversar com a esposa e filhos, sobre o dia de cada um, como estava nosso cotidiano lá fora. Conversa vai conversa vem, não houve liga suficiente para dar continuidade daquilo que seria à oportunidade de uma aproximação mais calorosa, distante das interferências experimentadas com a televisão. Infelizmente, como se fosse uma fumaça, os assuntos se evaporaram e ficamos novamente sentindo a falta de alguma coisa. Diante deste quadro negro, sem luz e completamente longe da realidade, senti um impacto muito grande dentro de mim, notei que inconscientemente estava preso ao brilho inebriante da telinha mágica da televisão. Foi então que naquele momento de vacilo, entre o real e o irreal, senti que deveria tomar alguma atitude, pois de repente vi que a vida estava passando por mim ao invés de eu passar por ela. Estava perdendo grandes chances, tinha virado estátua, pois havia parado no tempo. Felizmente tinha chegado a essa infeliz conclusão que não deixava de ser a pura verdade. E, o que me levou a uma reflexão maior sobre o assunto foi que estava auxiliando diretamente por me fazer acompanhar de outras pessoas, as quais amo muito. Isso me deixou mais amargurado ainda, pois estava, apesar de inconscientemente, colaborando para a obscuridade de outros. Mediante isso, conclui que todas as coisas, inclusive a tecnologia foram feitas para nos servir e delas tirarmos o melhor proveito possível. Contudo, é certo que jamais devemos trocar as delícias da vida, como os abraços, os beijos, o calor das amizades sinceras, pela frieza de um programa de televisão ensaiado, o qual foi feito para nos entreter e não para nos prender. Sinto que depois desta reflexão o meu coração ficou mais aliviado e pronto para amar mais as pessoas de carne e osso, as quais estão diariamente diante de mim e, não aquelas que não passam de um amor virtual, onde os sentimentos não afloram, apenas são frios e distantes. A dependência mutila todas as ações, o antídoto está dentro de nós, basta acordar para o mundo que está ao nosso redor lindo e maravilhoso. Nunca é tarde para se livrar das algemas, o tempo não tem dono. Pense nisso.