Dia destes fiquei matutano sobre as origens, ou seja, sobre o que fomos e o que somos não seria um pensamento sobre a árvore genealógica de cada um, mas apenas a nossa caminhada. Na verdade garanto que é muito interessante essa viagem de volta, a gente consegue buscar pelo caminho muitas recordações, muitas alegrias, muitas dificuldades de nossos pais na luta pela sobrevivência da família, pessoas queridas que já se foram e outras que aí estão ainda e que as vezes não representam muito para nós e vice versa, pois sepultaram o passado e se esqueceram de suas origens, das amizades e dos tempos de inocência, lamentavelmente. Nesta volta ao passado vi a turminha das peladas, ou seja, dos futebolzinhos, antigamente não seria necessário colocar a expressão, ou seja, para dizer que peladas era jogo de futebol, mas, como hoje as coisas são quase todas maliciosas, achei melhor explicar. E, continuando, vi a turma das peladas, com muitas saudades e com os olhos umedecidos, pois muitos deles já estão jogando no time do andar de cima, já se foram para o além. E, neste retorno consegui chegar ao tempo do Grupo Escolar, lá estavam todos aqueles que compuseram a minha existência, e muito deles já se foram, outros estão por aí, alguns conseguiram ter sucesso na vida, no entanto, o que de certa forma me deixa encabulado é que éramos todos iguais, classe média baixa, uns mais outros menos, mas não variava muito, aliás, a gente não dava muita importância para isso, hoje alguns mais favorecidos pela sorte ou por serem mais inteligente, se destacaram e não se lembram mais de suas origens, infelizmente. Numa parábola do Evangelho, narra que “um pobre homem devia ao rei alguns barris de óleo, outro tanto de farinha e, não tinha como pagar, o rei ameaçou o homem em colocá-lo na cadeia caso não pagasse a dívida, o homem desesperado suplicou piedade ao rei, que lhe concedeu um prazo considerável para saldar o compromisso, daí ao sair daquele sufoco, encontrou um outro pobre coitado que era seu amigo e lhe devia, ameaçou-o fortemente e esse suplicava para que lhe desse um tempo para poder pagá-lo, foi em vão às súplicas, ele não teve a mínima complacência com o semelhante, mandou jogá-lo na prisão. Um cidadão que assistiu aquela cena e, também a do rei com o implacável algoz, informou a sua majestade sobre o ocorrido e o monarca não teve dúvidas, mandou chamar o ingrato e o jogou na masmorra, como castigo pela sua intolerância”. Assim é que o devedor do rei esqueceu suas origens, pois na verdade eram amigos e pobre também. Certa ocasião, um amigo na adolescência foi morar com uma tia para estudar medicina, depois de alguns anos, já formado, voltou para residir novamente aqui e também desenvolver a sua profissão de médico. Quando nos encontramos fiquei muito feliz ao vê-lo e o chamei pelo nome, ele friamente se afastou de mim e disse, olha agora eu sou médico e quero que me chame de doutor. Naquele momento foi como se recebesse um enorme balde de água gelada em minha cabeça, desmoronou uma amizade sólida e de raízes profundas, pois foi feita na inocência da infância e da adolescência e, infelizmente o sucesso subiu a cabeça de meu ex-amigo, e ele esqueceu completamente de suas raízes. Assim é que se cada um de nós for rebuscar na memória, com certeza, terá tido um fato desagradável como este, de grandes amizades que por motivos “ignorados” se envergonham de seu passado e que não deveriam se envergonhar, uma vez que essa convivência anterior, com certeza ajudou e muito na formação do caráter e da dignidade, mas, inobstante tudo isso se esqueceram propositadamente de suas raízes.